sexta-feira, 22 de abril de 2016

Como eu conheci a Margarida

Andávamos os dois a passear, sozinhos. Deambulávamos. Na Malveira. Entre as trouxas e o pensamento na Feira às quintas-feiras.
Dantes as feiras eram à quinta-feira, para todos, e à quarta-feira para retalhistas. No primeiro dia de feira, vendiam-se as hortaliças à caixa e vendia-se gado. Era coisa bonita de se ver. Não tínhamos carro ainda quando lá fomos com a nossa filha mais velha da primeira vez. A menina tinha uns oito dias de vida e fomos de autocarro. Quem se cruzava connosco nem acreditava que ali passeávamos com coisa tão pequenina. Os ares saloios fazem bem à saúde. Dizem. Hoje, os ares saloios pouco diferentes serão dos de Lisboa.
Já acabou o mercado das quartas-feiras, do gado graúdo e miúdo. À quinta-feira vendem produtos da terra, alguns da região vendidos pelos produtores, outros comprados a armazenistas e intermediários. E muitos produtos daqueles que se vendem em todas as feiras do país, roupas de refugo ou contrafeitas, plásticos, loiças e ferramentas da China. Charcutarias sem frigorífico, mas que aceito. Afinal é só uma manhã, se os produtos estiverem em boas condições, não se devem estragar.
Para além das hortaliças, que sempre espreito e chego mesmo a comprar, o que actualmente mais me seduz na Feira da Malveira é o pão e o peixe. Vamos lá muitas vezes por causa do peixe fresco, porque é fresco e é bom e não é muito caro. Comparado com o peixe que é apresentado nas grandes superfícies... não é possível comparar. Afinal, as grandes superfícies têm que vender muito e barato. Na Malveira, o peixe tem sangue, não é seco e as vendedoras são peixeiras. 
Fora do dia de mercado, almoço na área da feira, no Restaurante Tia Xiquita, Restaurante Saloio e na Estrada Nacional, por trás das bombas da Repsol na Rodoviária do Oeste. Em qualquer dos casos, é neste último que termina o almoço: com a desculpa do café, é lá que comemos as Trouxas, como sobremesa.
Naquela tarde, andávamos os dois a passear, sozinhos. Deambulávamos. e fomos até ao Apeadeiro ferroviário da Linha do Oeste. Em degradação como tudo que a Caminhos de Ferro, em Portugal, diz respeito. O bar, anunciado, não existe; bilheteira não existe; funcionário do apeadeiro... às vezes vê-se lá. Mas o jardim está cuidado, valha-nos alguma coisa.
Naquela tarde, estava lá uma dresina, que são as máquinas auxiliares para certos trabalhos na linha. Esta era a dresina Margarida, nome que nos é tão querido, e realiza o seu trabalho nos túneis, que percorre em acções de limpeza.
Mas não vá à Malveira à espera de encontrar a Margarida no apeadeiro. Eu nunca a lá tinha visto, nem a voltei a ver. Se quiser ir comer trouxas, almoçar ou comprar peixe, não perderá o seu tempo.

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