Ao Encontro da Nossa Terra
sábado, 20 de julho de 2024
sexta-feira, 25 de outubro de 2019
A força económica e social de Góis
A Família Gaspar estava a gozar férias. Jantaram e
pernoitaram em Viseu; de manhã, após o pequeno-almoço, partiram para Oliveira
do Hospital, onde almoçaram muito bem, e, a caminho de Condeixa-a-Nova, onde
iam dormir nesse dia, passaram por Góis. Na verdade, iam passar em Vila Nova de
Poiares, mas enganaram-se na estrada. E não se arrependeram, porque tiveram a
oportunidade de deleitar a vista numa paisagem tão bela. Se bem que quase
fossem passar na ponte nova, ficando sem ver a vila. Mas viram. Tiveram muita
dificuldade em descobrir a igreja, e infelizmente encontraram-na fechada. Fizeram
fotos de encantar e lá seguiram para Condeixa.
Nem um tostão, deixaram de lucro à nossa terra. E ninguém se
alimenta de elogios, nem de fotografias no Instagram ou no Facebook.
Vem isto a propósito de mais um artigo que li no jornal O
Varzeense de 15 de Outubro de 2019, a páginas 8.
Quero acreditar que haja um equívoco, porque tenho
dificuldade em acreditar, não por pôr em questão a credibilidade do Centro
Paroquial de Solidariedade Social da freguesia de Alvares, mas porque me custa
a interiorizar esta lógica.
A lei e os legisladores criam dificuldades. Eu sei e todos
sabemos que eles não estão muito interessados nas pessoas, de modo especial
quando são do interior. Mas uma posição tão incompreensível da parte do
município tem de ter alguma justificação. Ou estamos pior do que eu pensava.
Fico na expectativa de ver diferente desenlace para esta
história nos próximos números do jornal.
A razão de ser da Câmara é apoiar as gentes e as
instituições benéficas do município, além de fazer com que a Família Gaspar não
passe em Góis apenas por engano, mas com o propósito de desfrutar das ofertas
económicas que lá encontrar – dormida, comida, artesanato – e deixe alguns
tostões, ou mesmo euros, de lucro.
Orlando de Carvalho
sexta-feira, 19 de outubro de 2018
O clima no comando das vidas
Mais que o simbolismo da passagem de ano, a mudança das
estações marca decisivamente as nossas vidas e estão repletas de novidades.
Como canta Carlos Mendes, “O Verão já terminou, foi um sonho
que findou”. Associamos sonhos às épocas do ano determinadas pela Natureza, não
obstante ela parecer brincar connosco às escondidas. Escrevo em meados de
Outubro e apenas há cerca de uma semana as temperaturas baixaram dos 30ºC para
vinte e tal. Não chove. Como no ano passado, as madeiras estão secas e rangem.
Tanto as árvores da floresta, que começa a escassear, como a madeira das portas
da minha casa. O ar está seco com as habituais consequências para o sistema
respiratório humano. O ambiente está excepcionalmente propício para mosquitos
transmissores de doenças que são mais tropicais que do nosso clima. As lojas
continuam a vender melão porque os meloais estão a produzir em pleno, neste
Verão que não acaba.
Eu passei todo o Julho em Inglaterra. Foi um mês marcante
nas Ilhas Britânicas e memorável, como não acontecia há décadas. Todo o mês sem
chover, quando a regra é chover duas ou três vezes por semana, sempre. Os
verdes campos ingleses ficaram finalmente dourados e cinzentos. Os residentes
da Grã-Bretanha estavam espantados, nunca tinham visto tal. E as temperaturas
subiam diariamente aos 30ºC para mim, tem sido um Verão muito longo.
Quero regressar à realidade a que estava habituado, mas que
são hábitos? As televisões continuam a falar de escândalos, e nós
alimentamo-nos disso como se se tratasse de realidade substancial.
Há-de chover. Peçamos a Deus que nos livre dos temporais e
das inundações assassinas. Há sempre um amanhã, tenhamos esperança. As escolas
já trabalham em força, as castanhas assadas estão à porta, os vendedores de
guarda-chuvas estão ansiosos por começar. Entretanto, aproveitemos os melões
portugueses que continuam a nascer e crescer. O sonho do Outono está prestes a
eclodir. As roupas nos armários vão ser mudadas, os agasalhos ficarão à mão.
Mais um pouco e estamos a celebrar os Santos. Louvado seja Deus.
Orlando de Carvalho
domingo, 18 de março de 2018
Eu só queria comprar um certo calendário…
Este ano lembrei-me de
comprar um “calendário planning de secretária” (não encontro termo em português
que seja esclarecedor), coisa que desde há vários anos não tenho tido. Mas não
encontrei. As papelarias Progresso e da Moda acabaram Encontre aqui a história destas lojas , a Papelaria Fernandes, depois de situações
conturbadas que se estenderam durante anos, mantem-se não obstante ter um site
tão desactualizado que continua a publicitar agendas para 2016, logo na home page! Também descobri um site das
Papelarias Emílio Braga: subsiste um armazém e, para o público, apenas uma
loja, no armazém, em área industrial.
Não é muito estranha a
situação das papelarias e todos sabemos que, sobretudo, o que aconteceu foi a
asfixia por parte das grandes superfícies que vendem de tudo, fruta, peixe,
detergentes, bebidas alcoólicas, drogas químicas, livros, papelaria… Ao
contrário das lojas clássicas que tinham como objectivo servir o cliente, e
servi-lo bem, dispondo sempre de unidades em armazém, mesmo fora de época, as
grandes superfícies visam apenas o lucro. Na prossecução deste objectivo tentam
mesmo que o cliente compre o que querem vender, modificando os hábitos deste.
Deste modo, os ovos de páscoa clássicos, os pequenos, os médios, os grandes e
os gigantescos, da Regina, da Favorita, da Aliança, os Lilly’s da Excelsior, da
Vianense, da Celeste… desapareceram todos e foram substituídos por amostras
minúsculas e irrisórias de uma qualquer fábrica estrangeira, com prejuízo para
o emprego de mão-de-obra nacional e para quem se deliciava com a excepcional
qualidade do chocolate fabricado em Portugal.
Mas voltamos ao
calendário que tive tanta dificuldade em encontrar. Incapaz de resolver o meu
problema, a minha mulher lembrou-se de uma lojinha em que tínhamos estado, em
Paris, cerca de 2002 ou 2003. Com a ajuda do Google e do Google Mapas,
descobri-a.
Buci News, no número 4 da Rue Grégoire
de Tours. A loja ainda existe. A sua especialidade parecem ser cartões de
felicitações para as diversas épocas do ano. Têm calendários e revistas, mas
têm aquela especialização que não imagino que pudesse existir em Portugal. Uma
papelaria dedicada a cartões de Natal, de Páscoa, de aniversário, do Dia da
Mãe, do Pai, etc. O meu amigo interrogar-se-ia:
- Para quê?
E concluiria:
- Mas há iguais no hipermercado,
e mais baratos.
Claro que os da grande superfície
não são iguais aos da loja especializada, são é todos iguais uns aos outros,
fabricados na China ou na Tailândia sob licença americana ou italiana, e sem
alma portuguesa. Até porque a multidão até acha mais engraçado que as frases
estejam escritas em inglês ou noutra língua qualquer.
Os jovens portugueses deste
século não podem imaginar o que é ir a uma papelaria e passar lá meia hora ou
uma hora deleitando-se a ver cartões para oferecer a alguém.
Depois das papelarias, podemos
pensar nas livrarias.
Entramos nas grandes superfícies
e temos dezenas ou centenas de livros à nossa espera. E até é coisa que dá
jeito: deixar a miudagem a desfolhar os livros, que estão em exposição para
venda, enquanto se fazem as compras, ou mesmo o marido, com algum livro, ou
jornal. E vendem tudo muito mais barato que na livraria, nas antigas livrarias.
Não vendem é o livro que a minha amiga quer. Vendem os expoentes comerciais: o
livro da apresentadora da televisão, que nem sabe falar, quanto mais escrever,
o livro daquele político corrupto, mas que vende bem entre os filiados no
partido, o livro daquela rapariga da novela, tão gira… e o do rapaz do reality
show que nem consegue acertar o género e o número gramaticais. Mas vendem!
Ganham eles, as editoras, as grandes superfícies, todos, enfim! Só perde o
leitor.
Porque livrarias são casas
especiais, de encanto, com cheiro a livros, onde há empregados que são uma
espécie de bibliotecários que conhecem os livros, sabem procura-los pelo nome,
pelo autor, pelo tema. Passear numa livraria não será nunca andar no meio de
papel higiénico e pacotes de arroz com um milhão de luxes e outro de lúmenes,
ar condicionado intenso, mais barulho que no mercado e sem funcionário algum à
vista para nos auxiliar.
As livrarias são casas de
descoberta, onde a pessoa mais erudita se sente como criança que descobre pela
primeira vez o proibido num livro, onde as palavras ganham vida e as imagens
são apenas complemento das letras.
Há cinquenta anos eram as
bancadas na margem do Sena e os livros proibidos em Portugal. Nos dias de hoje
são os centros exploratórios de livros e papéis, a Librairie
Delamain, a La Procure.
Oh! As livrarias, as papelarias.
É inquestionável, meu amor.
Teremos sempre Paris.
Orlando de Carvalho
sexta-feira, 22 de abril de 2016
Como eu conheci a Margarida
Andávamos os dois a passear, sozinhos. Deambulávamos. Na Malveira. Entre as trouxas e o pensamento na Feira às quintas-feiras.
Dantes as feiras eram à quinta-feira, para todos, e à quarta-feira para retalhistas. No primeiro dia de feira, vendiam-se as hortaliças à caixa e vendia-se gado. Era coisa bonita de se ver. Não tínhamos carro ainda quando lá fomos com a nossa filha mais velha da primeira vez. A menina tinha uns oito dias de vida e fomos de autocarro. Quem se cruzava connosco nem acreditava que ali passeávamos com coisa tão pequenina. Os ares saloios fazem bem à saúde. Dizem. Hoje, os ares saloios pouco diferentes serão dos de Lisboa.
Já acabou o mercado das quartas-feiras, do gado graúdo e miúdo. À quinta-feira vendem produtos da terra, alguns da região vendidos pelos produtores, outros comprados a armazenistas e intermediários. E muitos produtos daqueles que se vendem em todas as feiras do país, roupas de refugo ou contrafeitas, plásticos, loiças e ferramentas da China. Charcutarias sem frigorífico, mas que aceito. Afinal é só uma manhã, se os produtos estiverem em boas condições, não se devem estragar.
Para além das hortaliças, que sempre espreito e chego mesmo a comprar, o que actualmente mais me seduz na Feira da Malveira é o pão e o peixe. Vamos lá muitas vezes por causa do peixe fresco, porque é fresco e é bom e não é muito caro. Comparado com o peixe que é apresentado nas grandes superfícies... não é possível comparar. Afinal, as grandes superfícies têm que vender muito e barato. Na Malveira, o peixe tem sangue, não é seco e as vendedoras são peixeiras.
Fora do dia de mercado, almoço na área da feira, no Restaurante Tia Xiquita, Restaurante Saloio e na Estrada Nacional, por trás das bombas da Repsol na Rodoviária do Oeste. Em qualquer dos casos, é neste último que termina o almoço: com a desculpa do café, é lá que comemos as Trouxas, como sobremesa.
Naquela tarde, andávamos os dois a passear, sozinhos. Deambulávamos. e fomos até ao Apeadeiro ferroviário da Linha do Oeste. Em degradação como tudo que a Caminhos de Ferro, em Portugal, diz respeito. O bar, anunciado, não existe; bilheteira não existe; funcionário do apeadeiro... às vezes vê-se lá. Mas o jardim está cuidado, valha-nos alguma coisa.
Naquela tarde, estava lá uma dresina, que são as máquinas auxiliares para certos trabalhos na linha. Esta era a dresina Margarida, nome que nos é tão querido, e realiza o seu trabalho nos túneis, que percorre em acções de limpeza.
Dantes as feiras eram à quinta-feira, para todos, e à quarta-feira para retalhistas. No primeiro dia de feira, vendiam-se as hortaliças à caixa e vendia-se gado. Era coisa bonita de se ver. Não tínhamos carro ainda quando lá fomos com a nossa filha mais velha da primeira vez. A menina tinha uns oito dias de vida e fomos de autocarro. Quem se cruzava connosco nem acreditava que ali passeávamos com coisa tão pequenina. Os ares saloios fazem bem à saúde. Dizem. Hoje, os ares saloios pouco diferentes serão dos de Lisboa.
Já acabou o mercado das quartas-feiras, do gado graúdo e miúdo. À quinta-feira vendem produtos da terra, alguns da região vendidos pelos produtores, outros comprados a armazenistas e intermediários. E muitos produtos daqueles que se vendem em todas as feiras do país, roupas de refugo ou contrafeitas, plásticos, loiças e ferramentas da China. Charcutarias sem frigorífico, mas que aceito. Afinal é só uma manhã, se os produtos estiverem em boas condições, não se devem estragar.
Para além das hortaliças, que sempre espreito e chego mesmo a comprar, o que actualmente mais me seduz na Feira da Malveira é o pão e o peixe. Vamos lá muitas vezes por causa do peixe fresco, porque é fresco e é bom e não é muito caro. Comparado com o peixe que é apresentado nas grandes superfícies... não é possível comparar. Afinal, as grandes superfícies têm que vender muito e barato. Na Malveira, o peixe tem sangue, não é seco e as vendedoras são peixeiras.
Fora do dia de mercado, almoço na área da feira, no Restaurante Tia Xiquita, Restaurante Saloio e na Estrada Nacional, por trás das bombas da Repsol na Rodoviária do Oeste. Em qualquer dos casos, é neste último que termina o almoço: com a desculpa do café, é lá que comemos as Trouxas, como sobremesa.
Naquela tarde, andávamos os dois a passear, sozinhos. Deambulávamos. e fomos até ao Apeadeiro ferroviário da Linha do Oeste. Em degradação como tudo que a Caminhos de Ferro, em Portugal, diz respeito. O bar, anunciado, não existe; bilheteira não existe; funcionário do apeadeiro... às vezes vê-se lá. Mas o jardim está cuidado, valha-nos alguma coisa.
Naquela tarde, estava lá uma dresina, que são as máquinas auxiliares para certos trabalhos na linha. Esta era a dresina Margarida, nome que nos é tão querido, e realiza o seu trabalho nos túneis, que percorre em acções de limpeza.
Mas não vá à Malveira à espera de encontrar a Margarida no apeadeiro. Eu nunca a lá tinha visto, nem a voltei a ver. Se quiser ir comer trouxas, almoçar ou comprar peixe, não perderá o seu tempo.
quarta-feira, 15 de julho de 2015
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