domingo, 18 de março de 2018

Eu só queria comprar um certo calendário…



Este ano lembrei-me de comprar um “calendário planning de secretária” (não encontro termo em português que seja esclarecedor), coisa que desde há vários anos não tenho tido. Mas não encontrei. As papelarias Progresso e da Moda acabaram Encontre aqui a história destas lojas , a Papelaria Fernandes, depois de situações conturbadas que se estenderam durante anos, mantem-se não obstante ter um site tão desactualizado que continua a publicitar agendas para 2016, logo na home page! Também descobri um site das Papelarias Emílio Braga: subsiste um armazém e, para o público, apenas uma loja, no armazém, em área industrial.
Não é muito estranha a situação das papelarias e todos sabemos que, sobretudo, o que aconteceu foi a asfixia por parte das grandes superfícies que vendem de tudo, fruta, peixe, detergentes, bebidas alcoólicas, drogas químicas, livros, papelaria… Ao contrário das lojas clássicas que tinham como objectivo servir o cliente, e servi-lo bem, dispondo sempre de unidades em armazém, mesmo fora de época, as grandes superfícies visam apenas o lucro. Na prossecução deste objectivo tentam mesmo que o cliente compre o que querem vender, modificando os hábitos deste. Deste modo, os ovos de páscoa clássicos, os pequenos, os médios, os grandes e os gigantescos, da Regina, da Favorita, da Aliança, os Lilly’s da Excelsior, da Vianense, da Celeste… desapareceram todos e foram substituídos por amostras minúsculas e irrisórias de uma qualquer fábrica estrangeira, com prejuízo para o emprego de mão-de-obra nacional e para quem se deliciava com a excepcional qualidade do chocolate fabricado em Portugal.
Mas voltamos ao calendário que tive tanta dificuldade em encontrar. Incapaz de resolver o meu problema, a minha mulher lembrou-se de uma lojinha em que tínhamos estado, em Paris, cerca de 2002 ou 2003. Com a ajuda do Google e do Google Mapas, descobri-a.
Buci News, no número 4 da Rue Grégoire de Tours. A loja ainda existe. A sua especialidade parecem ser cartões de felicitações para as diversas épocas do ano. Têm calendários e revistas, mas têm aquela especialização que não imagino que pudesse existir em Portugal. Uma papelaria dedicada a cartões de Natal, de Páscoa, de aniversário, do Dia da Mãe, do Pai, etc. O meu amigo interrogar-se-ia:
- Para quê?
E concluiria:
- Mas há iguais no hipermercado, e mais baratos.
Claro que os da grande superfície não são iguais aos da loja especializada, são é todos iguais uns aos outros, fabricados na China ou na Tailândia sob licença americana ou italiana, e sem alma portuguesa. Até porque a multidão até acha mais engraçado que as frases estejam escritas em inglês ou noutra língua qualquer.
Os jovens portugueses deste século não podem imaginar o que é ir a uma papelaria e passar lá meia hora ou uma hora deleitando-se a ver cartões para oferecer a alguém.
Depois das papelarias, podemos pensar nas livrarias.
Entramos nas grandes superfícies e temos dezenas ou centenas de livros à nossa espera. E até é coisa que dá jeito: deixar a miudagem a desfolhar os livros, que estão em exposição para venda, enquanto se fazem as compras, ou mesmo o marido, com algum livro, ou jornal. E vendem tudo muito mais barato que na livraria, nas antigas livrarias. Não vendem é o livro que a minha amiga quer. Vendem os expoentes comerciais: o livro da apresentadora da televisão, que nem sabe falar, quanto mais escrever, o livro daquele político corrupto, mas que vende bem entre os filiados no partido, o livro daquela rapariga da novela, tão gira… e o do rapaz do reality show que nem consegue acertar o género e o número gramaticais. Mas vendem! Ganham eles, as editoras, as grandes superfícies, todos, enfim! Só perde o leitor.
Porque livrarias são casas especiais, de encanto, com cheiro a livros, onde há empregados que são uma espécie de bibliotecários que conhecem os livros, sabem procura-los pelo nome, pelo autor, pelo tema. Passear numa livraria não será nunca andar no meio de papel higiénico e pacotes de arroz com um milhão de luxes e outro de lúmenes, ar condicionado intenso, mais barulho que no mercado e sem funcionário algum à vista para nos auxiliar.
As livrarias são casas de descoberta, onde a pessoa mais erudita se sente como criança que descobre pela primeira vez o proibido num livro, onde as palavras ganham vida e as imagens são apenas complemento das letras.
Há cinquenta anos eram as bancadas na margem do Sena e os livros proibidos em Portugal. Nos dias de hoje são os centros exploratórios de livros e papéis, a Librairie Delamain, a La Procure.
Oh! As livrarias, as papelarias.
É inquestionável, meu amor.
Teremos sempre Paris.

Orlando de Carvalho

Sem comentários:

Enviar um comentário