Este ano lembrei-me de
comprar um “calendário planning de secretária” (não encontro termo em português
que seja esclarecedor), coisa que desde há vários anos não tenho tido. Mas não
encontrei. As papelarias Progresso e da Moda acabaram Encontre aqui a história destas lojas , a Papelaria Fernandes, depois de situações
conturbadas que se estenderam durante anos, mantem-se não obstante ter um site
tão desactualizado que continua a publicitar agendas para 2016, logo na home page! Também descobri um site das
Papelarias Emílio Braga: subsiste um armazém e, para o público, apenas uma
loja, no armazém, em área industrial.
Não é muito estranha a
situação das papelarias e todos sabemos que, sobretudo, o que aconteceu foi a
asfixia por parte das grandes superfícies que vendem de tudo, fruta, peixe,
detergentes, bebidas alcoólicas, drogas químicas, livros, papelaria… Ao
contrário das lojas clássicas que tinham como objectivo servir o cliente, e
servi-lo bem, dispondo sempre de unidades em armazém, mesmo fora de época, as
grandes superfícies visam apenas o lucro. Na prossecução deste objectivo tentam
mesmo que o cliente compre o que querem vender, modificando os hábitos deste.
Deste modo, os ovos de páscoa clássicos, os pequenos, os médios, os grandes e
os gigantescos, da Regina, da Favorita, da Aliança, os Lilly’s da Excelsior, da
Vianense, da Celeste… desapareceram todos e foram substituídos por amostras
minúsculas e irrisórias de uma qualquer fábrica estrangeira, com prejuízo para
o emprego de mão-de-obra nacional e para quem se deliciava com a excepcional
qualidade do chocolate fabricado em Portugal.
Mas voltamos ao
calendário que tive tanta dificuldade em encontrar. Incapaz de resolver o meu
problema, a minha mulher lembrou-se de uma lojinha em que tínhamos estado, em
Paris, cerca de 2002 ou 2003. Com a ajuda do Google e do Google Mapas,
descobri-a.
Buci News, no número 4 da Rue Grégoire
de Tours. A loja ainda existe. A sua especialidade parecem ser cartões de
felicitações para as diversas épocas do ano. Têm calendários e revistas, mas
têm aquela especialização que não imagino que pudesse existir em Portugal. Uma
papelaria dedicada a cartões de Natal, de Páscoa, de aniversário, do Dia da
Mãe, do Pai, etc. O meu amigo interrogar-se-ia:
- Para quê?
E concluiria:
- Mas há iguais no hipermercado,
e mais baratos.
Claro que os da grande superfície
não são iguais aos da loja especializada, são é todos iguais uns aos outros,
fabricados na China ou na Tailândia sob licença americana ou italiana, e sem
alma portuguesa. Até porque a multidão até acha mais engraçado que as frases
estejam escritas em inglês ou noutra língua qualquer.
Os jovens portugueses deste
século não podem imaginar o que é ir a uma papelaria e passar lá meia hora ou
uma hora deleitando-se a ver cartões para oferecer a alguém.
Depois das papelarias, podemos
pensar nas livrarias.
Entramos nas grandes superfícies
e temos dezenas ou centenas de livros à nossa espera. E até é coisa que dá
jeito: deixar a miudagem a desfolhar os livros, que estão em exposição para
venda, enquanto se fazem as compras, ou mesmo o marido, com algum livro, ou
jornal. E vendem tudo muito mais barato que na livraria, nas antigas livrarias.
Não vendem é o livro que a minha amiga quer. Vendem os expoentes comerciais: o
livro da apresentadora da televisão, que nem sabe falar, quanto mais escrever,
o livro daquele político corrupto, mas que vende bem entre os filiados no
partido, o livro daquela rapariga da novela, tão gira… e o do rapaz do reality
show que nem consegue acertar o género e o número gramaticais. Mas vendem!
Ganham eles, as editoras, as grandes superfícies, todos, enfim! Só perde o
leitor.
Porque livrarias são casas
especiais, de encanto, com cheiro a livros, onde há empregados que são uma
espécie de bibliotecários que conhecem os livros, sabem procura-los pelo nome,
pelo autor, pelo tema. Passear numa livraria não será nunca andar no meio de
papel higiénico e pacotes de arroz com um milhão de luxes e outro de lúmenes,
ar condicionado intenso, mais barulho que no mercado e sem funcionário algum à
vista para nos auxiliar.
As livrarias são casas de
descoberta, onde a pessoa mais erudita se sente como criança que descobre pela
primeira vez o proibido num livro, onde as palavras ganham vida e as imagens
são apenas complemento das letras.
Há cinquenta anos eram as
bancadas na margem do Sena e os livros proibidos em Portugal. Nos dias de hoje
são os centros exploratórios de livros e papéis, a Librairie
Delamain, a La Procure.
Oh! As livrarias, as papelarias.
É inquestionável, meu amor.
Teremos sempre Paris.
Orlando de Carvalho